Saudações ao tempo de mar
O tempo…
É algo que tanto nos interessa e desperta inquietações.
O mar…
Que nos faz encarar o mistério e a imensidão.
Quando construímos o Tempo de Mar, voltamos nos momentos em que para nós duas foram marcantes em nossa história, como quando nos conhecemos, quando precisamos nos separar como colegas de turma na faculdade e também na cumplicidade ao compartilhar projetos, ideias de trabalhos…
O tempo.
O mar.
Como nas marés, estivemos distantes, mas próximas de alguma forma, ligadas. Como nas correntezas de um rio, seguimos nosso caminho. O mar sempre esteve ali. A água sempre esteve em nós. Como os ponteiros do tempo do relógio, que às vezes passam suas contagens despercebidas e outras tornam-se latentes aos ouvidos,
uma hora nós estávamos lado a lado, e outras, nos vendo de longe.
Isso não seria possível sem que procurássemos outras formas de existir, longe da dor e da violência que o racismo e as violências de gênero nos ocasionam. Nada seria possível sem que buscássemos por amor como resposta. O tempo de mar também é o tempo de amor. Também é o tempo que corre de maneira distinta ao que o capital exige, de uma forma mais branda e calma. Aqui, não somos como máquinas ou produtos. Somos duas artistas.
Pessoas.
Que sentem, que mentem. Que amam e que sonham.
São condições essas que por muito tempo nos impossibilitaram de experimentar. Mas sinto que não é mais hora, não é mais tempo de reviver essas dores. Daqui pra frente, não lidaremos com o gosto amargo da dor.
É tempo de Mar, de amor, é um tempo doce, onde conquistamos a chance de teimar com tudo que é proposto para nós e também reescrever nossas histórias.
O amor traz consigo liberdade, paz, movimento e se constrói através do tempo, não aquele cronológico, mas sim da entrega e troca, como o mar e suas ondas.
O que nos leva a pensar: O que vem antes do amor? Quanto tempo é necessário, se for necessário, para viver este tempo?
Os mistérios que o mar nos traz é algo semelhante ao que deduzimos como amor. Ao que percebemos em nós. Existe aqui um despertar sensível ao que nos apresentaram em filmes, séries e livros sobre esse sentimento. Amar. Ser amada. Se tornar um ser amante. A complexidade designada a isso pelos ideais românticos, brancos, tristes, cisgêneros e melancólicos… Será que precisamos de fato construir afetuosidade através disso?
Navegar, boiar na praia. Sentir a água, sentir a onda. Não seria isso amor? Leve. Com agitações e às vezes uns caldos. Mas ainda sim em paz.
Aqui, em Matheusa, não existe o desejo em trazer neste texto o que aterroriza.
Não opto por trazer catástrofes naturais como exemplo. Não opto mais pelo que me aparenta ser doloroso. A liberdade construída pelo amor trata-se disso.
À liberdade, um brinde.
Ultimamente venho sendo livre e por esses dias quis compartilhar um pouco desse caminho, sugerindo que pessoas com as quais compartilho o amor que venho descoberto escrevessem cartas para elas. Inseri açúcar e sal em um pote com gelo e os ofereci. Tratei de trazer um certo tipo de confusão ao paladar, o gosto salgado e doce simultaneamente, mas também pensei em como poderíamos construir o amor analisando o tempo do derretimento do gelo, o gosto inabitual mesclado entre sal e açúcar e o silêncio. Amar também é silêncio…
Sendo uma pessoa falante, extrovertida e barulhenta, tenho entendido o amor, o mar e tudo que estou vivendo aqui de uma maneira silenciosa. É um tanto quanto irônico pensar que o mar, que por sua vez tem suas ondas e marés, traz uma ideia de silêncio e paz para mim, mas é o que sinto por agora.
Eu li numa carta escrita por um amigo que dizia que não é preciso ter medo de si, o caminho da cura pode ser a coragem. É preciso sobreviver ao medo. E é isso que tenho exercitado…
Sobreviver ao medo hoje, ontem e amanhã é também ser mais como o mar…
Corromper o caminho que nos tende a terra firme é permitir-se ser mais instável, ser mar. É saborear o sal que em nós corre: das lágrimas ao suor.
Ser mar também é conseguir nadar aos mares prometidos a mim. É abandonar as sensações de sufocamento.
Abandonar…
Respirar tranquilamente. Quero respirar tranquilamente. Respirar na Kalunga, como tanto me ensina uma amiga querida. Kalunga é um território sagrado.
Quero um dia respirar embaixo do mar, porque o mar consigo carrega uma imensidão. Carrega consigo mistério.
Eu vi um pedido de um amigo e trago comigo também seu desejo.
Queria um dia poder ouvir do mar qual seu desejo. Assim, conseguiria entender melhor os meus…
Venho trazendo pensamentos de amigos nessas últimas frases. Não de maneira extrativista. Meus amigos ocupam parte de quem sou.
Eu, usando este tempo que vivo, penso que ser o que meus amores são comigo é a melhor maneira de experimentar de fato o sentimento.
Sonhos… Compartilhamentos… Desejos…
Saúdo a ti, o Mar.
Celebro seu tempo.
Obrigada.
Matheusa Moreira

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